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- "MISTER! STOP NOW!!"
Como esta história continua?
a) Quando me virei, um policial estava chamando outra pessoa.
b) Um segurança do aeroporto impediu minha saída.
c) Minha mala abriu e toda minha roupa estava espalhada pelo chão formando uma trilha de meias, cuecas e camisas atrás de mim.
Quem torceu pela continuação "c", não está de todo errado. Isto realmente aconteceu! Mas não na Rússia e sim no Rio de Janeiro. Eu nem havia deixado minha cidade natal e já estava pagando meu primeiro mico.
Ao entrar na área de embarque do Galeão (Aeroporto Tom Jobim), tive de passar pelo controle. Tirei moedas do bolso, relógio, câmera, cinto e abri a valize para retirar o laptop.
Em função da falta de prática, após a revista me recompuz de forma atabalhoada. Catei as moedas, o relógio, a máquina fotográfica, laptop, recoloquei o cinto, fechei o ziper do compartimento do laptop e esqueci o ziper principal (da valize, que também abri sem necessidade). Ao erguer a mala pela alça, minhas mudas de roupa se espalharam pelo chão do aeroporto como água jogada à balde.
Em partidas de xadrez, desenvolvi uma técnica de auto-controle que utilizo sempre que meu adversário faz um lance inesperado e bom: Fico impassivel, anoto o lance calmamente e me recosto na cadeira como se estivesse tomando um chá inglês. Enquanto isso, xingo mentalmente a mim mesmo e a todos.
Pois foi o que fiz no chão do aeroporto. Agachei-me calmamente e, para demonstrar que não estava nem um pouco incomodado com a situação, separei lentamente as cuecas por cor e modelo, fiz montinhos pelo chão com as meias e estiquei as camisas. Me pus de pé, calculei quem entraria na mala primeiro, fiz umas caretas de quem está ponderando, gesticulei como que medindo o espaço da valize... olhei para os lados ameaçando pedir alguma opinião.
Coloquei tudo de volta na mala e deixei as meias por último pois adoro arremessa-las como se fossem bolas de basquete. A valize com a tampa aberta em 90 graus fazia uma tabela perfeita. Tomando distâncias cada vez maiores, demonstrava minha perícia para todos que quizessem ver. Aliás, alguns eram tão distraídos que não percebiam minha exibição e passavam bem na linha de tiro. Quando levavam meias na cara, ainda reclamavam.
Quem optou pela continuação "a" foi, como eu, muito otimista. Admito que esta também foi a opção na qual eu depositei minhas esperanças.
Mas as esperanças se evaporaram quando o segurança me alcançou e apontou para a máquina de raio-x. Fui "sorteado" pelo agente da fiscalização para ter as malas verificadas. Salvo uma enorme quantidade suspeita de roupa suja (que atordoaria qualquer cão farejador), tudo o mais estava na mais perfeita ordem.
"Dobrai utra", disse o fiscal me liberando. "Dobrai", devolvi.

Roland, Stelling e eu. Primeira foto em Moscou.
Pude, então, atravessar a última porta do aeroporto que separava o prédio do céu aberto de Moscou. Sim! Caracteres cirílicos para qualquer lado que me virasse. Mercedes, Ladas e limosines convivendo pacificamente e já revelando uma cidade de desigualdades. Me senti em casa.
No caminho para o hotel já podemos perceber a vastidão da cidade. Sem relevos, avenidas largas, Moscou se perde no horizonte. Mas esta é uma visão poética pois, de fato, os prédios altos e numerosos limitam o alcance da visão.

Rumo ao hotel: Avenidas largas e muitos prédios.
Quem dormir em São Paulo e acordar em Moscou, não perceberá diferença alguma mas, observando individualmente cada prédio ou objeto, percebemos que a palavra "velho" tem aqui o seu significado mais nobre: Feito para durar.
"Feito para durar", se aplica à arquitetura, automóveis, metrô, luminárias, encanamentos, asfalto, ônibus elétrico, artesanato e tudo o mais que ainda não foi contaminado pela onda consumista que também chegou até estas bandas.

Velho... mas funciona muito bem. Feito para durar.
Por falar em consumo, Moscou não é uma cidade barata. Pelo contrário! Os hotéis são muito caros e os restaurantes também. Uma corrida curta de taxi não sai por menos de 1000 Rublos (R$70,00 na ocasião) e isso está muito além das possibilidades de um moscovita médio e, sob este aspecto, me sentia um moscovita nato.
Com o hotel pago antecipadamente (antes de sair do Brasil), nos restava controlar as compras e andar de metrô (este sim, muito barato). Mas ainda não havíamos sequer chegado no hotel... e nos perguntávamos na van se teríamos banheiros nos quartos, já que optamos pelos alojamentos mais baratos que foram oferecidos.

Hotel Cosmos: Construído para os Jogos Olímpicos de 1980, tem quase 1800 quartos.
Obviamente que haviam banheiros (que tolisse a nossa!) e, surpreendentemente, banheiras também. O mini-bar era decorativo (estava desligado e vazio) mas tinha TV. O hotel tem também um Cassino, um mini-Shopping e casas de espetáculos. Mas a diária só incluia o café da manhã...
Estrategicamente posicionados na Avenida Mira, junto à estação do metrô, tínhamos Moscou literalmente em nossa palma da mão. Podíamos alcançar qualquer canto da cidade através das 13 linhas de metrô que se entrecortam como as linhas da palma da mão. Como ciganos experientes, marcamos o Kremlin bem no centro enquanto o nosso hotel ficou na interseção das linhas da vida e da felicidade. Não há como se perder por aqui.

No estacionamento do Cosmos, dispensei as limosines e fui de metrô.
Próxima parada: Praça Vermelha...
criado por Problemas de Xadrez
09:12:48