Problogmas de Xadrez

Blog de notícias do "xadrez arte", por Leo Mano.

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Terra Blog

05.11.08

163. Rússia Capítulo IV

categorias: Opinião

A feira Smailovsky foi outra grande surpresa. Ela é, na verdade, uma cidade montada e decorada para receber milhares de pessoas que queiram comprar, comer ou apenas se divertir.



Feira de Artesanato Smailovsky

Restaurantes, lojas e museus distribuídos em prédios construídos no mais belo estilo russo. Cúpulas de cebolas multi-coloridas, torres e castelos de tirar o fôlego. Tudo muito bonito e impressionante.

Infelizmente, a feira não estava funciondo naquele dia (por ser uma segunda-feira) mas não perdi a viagem. Muitas lojas funcionavam na periferia de Smailovksy para atender uma demanda inseçante de turistas.

Menos mal... hoje é dia de xepa em Smailovsky. Dia de comprar barato e pechinchar. Eu tinha uma lista de compras que incluia um jogo de xadrez, camisas de futebol, uma Shapka (aquele gorro de pelo de coelho) e algumas matrioshkas (aquelas bonecas dentro de bonecas).

Consegui comprar tudo que queria e só fiquei indeciso com relação ao jogo de xadrez. Eu, inicialmente, pretendia comprar um set clássico mas encotrei ali uma quantidade enorme de jogos decorativos em madeira entalhada à mão. Trabalhos maravilhosos e que também se revelaram típicos da rússia.



Jogos de madeira entalhados à mão

Diante da minha total incapacidade de escolher um jogo, decidi que deveria olhar detalhadamente também os jogos que estavam no fundo do balcão. Caminhando com todo o cuidado entre todos aqueles tabuleiros, me senti eu mesmo como mais uma pecinha de xadrez indo de "e1" até "e8".

Observava cada peça sem tocar em nada. Seria um crime deixar sequer uma impressão digital naquelas obras de arte. Tabuleiros com entalhes fabulosos e delicados. Nada além de peças poderiam ficar sobre eles.

Eu estava hipnotizado caminhando até os confins daquela loja, peças e mais peças de todos os tamanhos e formatos. Quanto tempo o artesão precisou para construir aquelas esculturas tão impressionantes e frágeis?

Depois de muito pensar e analisar todos os trabalhos que existiam ali, cheguei a uma decisão. Chamei a vendedora e apontei para o exército que eu queria para mim. Ela apertou os olhos tentando localizar minha escolha e apontou também na mesma direção.

- "Dá", confirmei e dei por encerrada minha árdua missão.

Foi quando me virei naquele curto espaço e não pude ver um pequeno degrau sob meus pés. Aliás, eu também não podia ver meus pés escondidos por centenas de tabuleiros de xadrez na altura da cintura.

Sem achar o chão, tentei (desesperadamente) voltar o pé para a posição anterior. O pé voltou mas a inércia do corpo já estava projetada para frente. Meu centro de massa já estava além da ponta do meu nariz e isso significava "caminho sem volta".

Numa tentativa insana de suavizar a queda e não tocar em nada, comecei a agitar os braços no ar como um frango tentando alçar vôo. Quando meu pé de apôio também perdeu o chão, me senti em pleno ar mergulhando numa enorme piscina quadriculada.

Agora só pensava em fazer "menos água" possível. Mas foi um mergulho de barriga! Daqueles que dóem em quem assiste. Esparramei-me como uma enorme cruz gorda e pesada. Tabuleiros e peças voaram para o alto como se uma explosão atômica tivesse acontecido.

Um barulho ensurdecedor e sem fim abafava até meus pensamentos. Cavaletes, tábuas e mesas se espatifavam no chão. Destroços e mais destroços vinham do nada e se multiplicavam como se toda a feira estivesse implodindo.

Aquilo pareceu durar uma eternidade e, enfim, me vi deitado no centro de uma cratera de impacto. Agora o silêncio era total e eu estava paralizado. Ainda nem tinha aberto os olhos e senti uma picada na cabeça. Antes de enteder o que estava acontecendo, tomei a segunda picada e a terceira. Estava chovendo xadrez! Peças e mais peças caiam do céu e aquele barulho infernal recomeçou. Eu ria e chorava ao mesmo tempo.



Finalmente me levantei e percebi que todos na feira estavam paralizados. Ou o tempo parou ou soltaram a Medusa (que transformou a todos em estátuas). Olhando aqueles tabuleiros retorcidos e peças deformadas, não pude deixar de lembrar de alguns problemas feéricos do Oswaldo Faria...

Mas quem tinha problemas ali era eu. A valize aberta no Rio de Janeiro tinha sido um sinal. Enquanto sacudia a poeira e tentava recuperar a razão, escutei o primeiro grito:

- "Plôrra! Idiot! Idiot! Plôrra idiot!". Era a vendedora explodindo descontrolada numa crise de nervos que não era típica do artesanato russo. Instantaneamente a multidão começou a gritar junto...

- "Idiot! Idiot! Brasilie idiot! Brasilie plôrra! Ubit! Ubit!".

Foi o curso intencivo mais eficiente que já tive. Num único segundo passei a compreender russo perfeitamente. Me sentia um local... mas prestes a ser linchado ou coisa pior. Sai em disparada correndo no meio da multidão. O fator surpresa foi decisivo. A multidão ficou sem ação e consegui desaparecer na estação (sempre lotada) do metrô.

Chegando no hotel, avisei aos outros problemistas: "Temos de sair de Moscou imediatamente! Podem haver barreiras nos aeroportos. Temos de sair por terra!"

Fizemos as malas, colocamos bigodes falsos e pegamos um trem para São Petersburgo.

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