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A odisséia russa narrada em capítulos rendeu muitos comentários por email, nos clubes que frequento e entre os amigos. Aproveito para agradecer a todos pelas palavras tão gentís e pedir que comentem no post!

Esta "nuvem de palavras" foi enviada pelo Stelling utilizando o texto dos últimos posts. Clique na imagem para aumentar.

A viajem de trem entre Moscou e Leningrado dura 7 horas. Acredito ser a melhor opção de deslocamento entre as duas cidades. Viajando à noite numa cabine leito, é impossível não dormir profundamente com o balançar do vagão e o som característico das rodas de ferro se equilibrando nos trilhos de prata (dodeskaden, dodeskaden, dodeskaden). Mas o que me fez dormir melhor ainda foi saber que estava economizando uma diária de hotel.

Estação ferroviária em São Petersburgo
Se em Moscou bati meu record de distância de casa (11.600Km para leste), em São Petersburgo faltaram meros 700Km para alcançar o círculo ártico. Mas o frio de 4 graus era suportável e pude andar tranquilamente pelas ruas da cidade.
São Petersburgo, última escala de nossa viagem, foi outro ponto alto de nossa aventura. O Museu Hermitage é indescritível. Não conheço o Louvre (de Paris), mas ouvi mais de uma vez que o Hermitage é imbatível. Não faz sentido desfiar aqui todos os detalhes mas, para se ter uma idéia, pude esfregar (literalmente) meu focinho (figurativamente) em duas Madonas pintadas pelo meu xará Leonardo da Vinci. Eu precisaria de 3 dias inteiros para conhecer todas as alas do museu.

Hermitage: Acervo e palácio incrivelmente ricos.
Quando saímos do Hermitage, os problemistas se separaram e cada um tomou seu rumo. Andei pelas lojas procurando a Vodka Brillant (dica do Selivanov, GM russo e campeão mundial de soluções) e outras lembranças. Acabei sendo o primeiro a voltar pro hotel.
Ainda não havíamos feito o check-in mas o hotel já havia reservado dois quartos para os dois "casais" de problemistas: Roberto+Andrea e Eu+Marcos! Aliás, o hotel já tinha sido pago antes de sairmos do Brasil e, como sempre, optamos pelas configurações mais baratas: Um quarto duplo para cada casal!

Do alto da Igreja São Isaac, se vê o Rio Neva...
Peguei minha chave e fui para o quarto. Ao abrir a porta percebi que não havia muito espaço ali. Se a cama balançasse e fizesse "dodeskaden" seria igual à cabine do trem! No quarto só cabia (sob medida) a cama de casal.
Cama de casal? Uau! Um quarto só pra mim! A agência conseguiu um upgrade. Diante de uma surpresa tão agradável, o tamanho do quarto não me incomodava mais. Desfiz minhas malas, espalhei tudo pelo cubículo e fui tomar meu banho relaxante.
Eu ainda estava no banheiro quando escutei alguém tentando abrir a porta do meu quarto. Comecei a gritar lá de dentro: "Priviét"! Mas ninguém respondia. "Olá! Quem é"? Insisti.
A porta se abriu e pude escutar o barulho de malas tentando entrar no quarto. Só podia ser o Marcos e aí eu gelei. Íamos dividir uma cama de casal? Eu ainda gritei lá de dentro do banheiro: "Marcos, está tudo bagunçado porque eu pensei que esse quarto fosse meu".
A resposta veio após um constrangedor silêncio de 10 segundos...
- "Plôrra! Paruski plôrra! Bando de paruski plôrra!". Eu não podia ver o Marcos de onde eu estava mas, da maneira histérica com que praguejava, imaginei um daqueles ursos de pé agitando os braços e a boca aberta prestes a atacar a primeira coisa que aparecesse pela frente.

... e toda São Petersburgo até o horizonte.
Quando eu saí do banheiro (com um pouco de medo) a porta do quarto estava escancarada e já não tinha mais ninguém ali. O hotel nos reservou um quarto duplo com cama de casal!
Cinco minutos depois, o telefone do quarto tocou. Era o urso: "Leo, arrumei outro quarto com camas separadas. Eu vou aí buscar as malas".
Eu estava na Rússia vivendo uma montanha-russa emocional. Primeiro, já estava preparado psicologicamente para dividir um quarto com outro problemista. Depois, achei que teria um quarto só pra mim. Então veio a terrível perspectiva de dividir uma cama de casal! Finalmente, tudo parecia estar voltando aos eixos. O que virá agora?

A própria cúpula de São Isaac é um cartão postal
Quando o Stelling e sua mulher, Andrea, chegaram no hotel, foram conduzidos para um quarto com duas camas de solteiro. O Stelling, que até então não sabia das confusões anteriores, reagiu com naturalidade:
- "Idiot! Paruski idiot! Bando de paruski idiot! Plôrra!".
Quando o gerente do hotel percebeu que o dia não ia terminar bem, tratou de dar um upgrade na reserva do casal como uma maneira de se desculpar (e também porquê não haviam outros quartos vagos na categoria contratada). Segundo o Stelling, o quarto que eles receberam era tão grande, mas tão grande, que tinha um salão de convenções anexo à ante-sala que, por sua vez, tinha boate e cinema privativo. O único problema chato é que, para chegar no banheiro, era preciso passar pela sauna, por um ginásio esportivo, duas piscinas, um spa e uma academia.
Para não perder todo esse tempo, ele ia no banheiro da ala social que era quase a igual ao da suíte (ambos tinham hidromassagem e queda d'água), mas o social tinha karaokê no chuveiro.
Enquanto isso, eu e Marcos dividíamos uma cela. A minha mala teve de se transformar numa mesa de cabeceira, pois não havia onde coloca-la. Deitei na cama com os pés pra dentro do armário e o braço do Marcos ficou por cima do criado mudo. O controle remoto da TV era desnecessário: usávamos o dedão do pé. Eu controlava o volume e o Marcos os canais.
No dia seguinte, o Stelling nos contou as mil e uma maravilhas de uma noite nas Arábias, ou melhor, na Rússia. Achei muito estranho. Não ficamos no mesmo hotel? Ou você sonhou que estava no Burj al Arab no Dubai?
Quando ele explicou tudo que aconteceu, ficou claro que a minha volta antecipada ao hotel tinha desencadeado uma sequência de enganos que culminou numa noite presidencial para metade dos problemistas enquanto a outra metade fazia estágio para habitar submarino.
Como punição por não ter chamado os amigos para dividir tão grandiosa e opulenta hospedaria, dias depois (já no Brasil), depois de participar de um evento em Vassouras-RJ, convidei o Stelling para pernoitar em Morro Azul (uma cidade vizinha) na casa de amigos.
Após alguma resistência, ele aceitou. O sabor da vingança me fazia tremer de emoção. Eu gargalhava e esfregava as mãos como um bruxo aguardando o preparo de uma poção.
A casa em Morro Azul era pequena e já abrigava uma multidão. Não havia espaço para todos... Quando pulei na minha cama quente e macia, percebi que o Stelling estava meio perdido procurando um lugar para dormir. Apontei para um lençol estendido no chão e lhe desejei uma boa noite: Yes! Durma bem, campeão!
No próximo post, o epílogo desta saga: Último dia em São Petersburgo e a volta pra casa.
criado por Problemas de Xadrez
09:49:39