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Blog de notícias do "xadrez arte", por Leo Mano.

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Terra Blog

26.11.08

167. Alice no País dos Espelhos

categorias: Problemismo, Opinião

 


Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898)

O reverendo Charles Lutwidge Dodgson, ou Lewis Carroll (como era conhecido o escritor Inglês), foi mundialmente aclamado depois que publicou o livro "Alice no País das Maravilhas" (1865). Basicamente, seu livro foi "classificado" como sendo direcionado para o público infanto-juvenil.

De fato, a ambientação e os personagens parecem nos remeter ao mundo dos sonhos de uma criança mas, nem por isso, o texto está desprovido de questionamentos lógicos, matemáticos, psicológicos, políticos e outras tantas sutilezas. Estas características permaneceram em outro livro chamado "Alice no País dos Espelhos" (1872), que é uma sequência da obra-prima anterior.

O nonsense, os paradoxos e o aparente caos dos acontecimentos refletem, na verdade, uma engenharia premeditada e calculada nos menores detalhes por um autor que também era matemático, fotógrafo e aficionado dos jogos de cartas e xadrez.

No País dos Espelhos, Alice assume a identidade de um peão branco e recebe a missão de se tornar Rainha. Durante a aventura, os personagens mais bizarros são encontrados. Inicialmente, Lewis Carroll havia criado um personagem para cada peça do jogo de xadrez mas, ao que parece, a história se tornou confusa e sofreu um "enxugamento" nas edições posteriores.

"O País dos Espelhos é um sonho de Alice? Ou Alice é um sonho do Rei Branco?" Este tipo de questionamento relativístico pode ter desdobramentos difíceis...

Peão branco (Alice) joga e ganha em 11 lances.

Infelizmente, a edição que possuo não contempla um diagrama criado pelo próprio autor que servia para "contar" a história sobre as 64 casas. Tive de busca-lo na internet.

A solução do autor não tem maiores compromissos com os formalismos das composições artísticas. Nem sequer a alternância de movimentos é respeitada. É apenas uma alegoria da própria história: 1) Alice encontra a Rainha Vermelha; 2)e2-h5; 3) Alice avança pela 3ª e 4ª casas (Tweedledum e Tweedledee); 5) d2-d4; 6) c1-c4; 7) Alice encontra a Rainha Branca com xale; 8) c4-c5 (se transforma em ovelha); 9) d4-d5 (loja e rio); 10) c5-f8 (ovo na prateleira); 11) d5-d6 (Humpty Dumpty); 16) f8-c8 (vôo do Cavaleiro Vermelho); 17) d6-d7 (floresta); 18) g8-e7+; 19) f5xe7; 20) e7-f5; 21) d7-d8 (Alice recebe a coroa de Rainha); 22) h5-e8 (Exame de Alice); 23) Alice se torna Rainha; 24) Alice no castelo (festa); 25) c8xa6 (sopa); 26) d8xe8 (Alice vence).

Contudo, para minha surpresa, descobri que existe uma série de mitos envolvendo numerologia e mensagens subliminares em torno dos livros de Lewis Carroll. No diagrama acima, por exemplo, podemos encontrar as iniciais "LC" ocultas entre as peças (L=c5+e4+f5, C=c1+d2+e2+f1). A fixação do autor pelo número 42 (que, aparentemente, existia de fato), se revela na posição inicial de Alice no tabuleiro (4ª coluna, 2ª fileira).

Alice Liddell (foto: Charles Dodgson)

Mas os mitos não param por aí e vão muito além. O relacionamento entre o autor (descrito como um solteirão tímido) e Alice Liddell (uma menina de 7 anos que foi sua modelo em várias sessões fotográficas) suscitou as mais variadas teorias sócio-comportamentais que variavam desde o ingênuo/paternal até o malicioso/destrutivo (passando por todos os tabus que o tema inspira). Senão, vejamos:

O livro descreve um duelo entre os cavaleiros branco e vermelho que representaria uma disputa pela própria Alice. O diagrama reproduz esta batalha nos lances 18.Ce7+ 19.Cxe7. O cavaleiro branco (vencedor) seria o próprio Carroll!

Avançando ainda mais no mundo dos símbolos, a indicação de xeque, que era feita por uma cruz (†) nos livros da época, também poderia representar o matrimônio e o branco do cavalo vencedor representaria a pureza em substituição à paixão e à luxúria (cavaleiro vermelho).

Assim como "Código da Vinci", "Matrix" e "2001-Uma Odisséia no Espaço", quilos de "mensagens" foram pinçadas de "Alice no País dos Espelhos". Comunidades foram criadas para este fim e outros tantos se aventuraram isoladamente.



Christophe Leroy (mestre francês) demonstra a história de Alice para Karpov.

Entre os "estudiosos" deste livro, podemos citar o mestre francês Christophe Leroy que chegou à conclusão de que cada personagem do livro é, na verdade, inspirado no mundo real. O Rei e Rainha brancos seriam os pais de Alice Liddell e a Rainha Vermelha seria a própria Rainha Vitória!

Tudo isso é muito interessante mas, antes de se deixar levar pelo mundo da fantasia, lembrem-se de que esta era a especialidade de Carroll! Seus textos foram deliberadamente escritos para isso. Por outro lado, nenhum escrito em seu diário, cartas (centenas delas) ou artigos, transparece qualquer intenção de envolvimento com Alice Liddell.

Já a fantasia proposta por Lewis Carroll é tão atraente que nos fica impossível perceber, por exemplo, que seu diagrama é, na verdade, um "mate direto em 3 lances" (nenhum artigo revela esta singeleza!) com todos os elementos básicos exigidos de uma composição artística: Solução única (1.Cg3+ Re5 [1...Rd4/Rd3 2.Dc3#] 2.Dc5+ Re6 3.Dd6#) e apenas peças essenciais aparecem no diagrama. Se tirar-mos o Cg8, por exemplo, o problema ganha uma solução alternativa (1.Cd6+ Re5 2.Dc3+/Db2+/Da1+ Re6 3.Df6#) destruindo-o por completo.

Este "mate em 3", por si só, não tem maiores atrativos mas é o perfeito contraponto na parceria entre a fantasia e a realidade que permeia todo o livro.



Mas eu não poderia terminar sem falar do "tema Excelsior" que, no problemismo, pede que um peão (que deve aparecer no diagrama em sua casa original) promova ao longo da solução. Exatamente como fez Alice no País dos Espelhos!

Sam Loyd
London Era, 1861
Brancas jogam e dão mate em 5 com a mais improvável peça ou peão.

Reza a lenda que Sam Loyd (genial compositor americano de problemas de xadrez) compôs o problema ao lado depois de ser desafiado por um amigo, Denis Julien, que disse ser capaz de "sempre dizer qual peça dará mate na linha principal de um problema de xadrez".

Loyd, então, mostrou-lhe a posição e lhe fez o seguinte desafio: "Você não precisa me dizer qual peça branca dará mate. Basta me apontar uma peça branca que NÃO dará o mate!" e apostaram um jantar. O amigo apontou para a peça que ele considerou ser a mais improvável de todas: O distante peão em b2. Obviamente, o amigo perdeu a aposta!

Motivado pelo hábito de dar nomes aos problemas, Sam batizou este de "Excelsior" inspirado por um poema de 1841 escrito por Henry Wadsworth Longfellow. O nome acabou batizando também o próprio tema brilhantemente construído nesta composição. Solução no post 91.

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