Problogmas de Xadrez

Blog de notícias do "xadrez arte", por Leo Mano.

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Arquivo de: Outubro 2008

28.10.08

161. Rússia Capítulo II

categorias: Opinião

- "MISTER! STOP NOW!!"

Como esta história continua?

a) Quando me virei, um policial estava chamando outra pessoa.
b) Um segurança do aeroporto impediu minha saída.
c) Minha mala abriu e toda minha roupa estava espalhada pelo chão formando uma trilha de meias, cuecas e camisas atrás de mim.



Quem torceu pela continuação "c", não está de todo errado. Isto realmente aconteceu! Mas não na Rússia e sim no Rio de Janeiro. Eu nem havia deixado minha cidade natal e já estava pagando meu primeiro mico.

Ao entrar na área de embarque do Galeão (Aeroporto Tom Jobim), tive de passar pelo controle. Tirei moedas do bolso, relógio, câmera, cinto e abri a valize para retirar o laptop.

Em função da falta de prática, após a revista me recompuz de forma atabalhoada. Catei as moedas, o relógio, a máquina fotográfica, laptop, recoloquei o cinto, fechei o ziper do compartimento do laptop e esqueci o ziper principal (da valize, que também abri sem necessidade). Ao erguer a mala pela alça, minhas mudas de roupa se espalharam pelo chão do aeroporto como água jogada à balde.

Em partidas de xadrez, desenvolvi uma técnica de auto-controle que utilizo sempre que meu adversário faz um lance inesperado e bom: Fico impassivel, anoto o lance calmamente e me recosto na cadeira como se estivesse tomando um chá inglês. Enquanto isso, xingo mentalmente a mim mesmo e a todos.

Pois foi o que fiz no chão do aeroporto. Agachei-me calmamente e, para demonstrar que não estava nem um pouco incomodado com a situação, separei lentamente as cuecas por cor e modelo, fiz montinhos pelo chão com as meias e estiquei as camisas. Me pus de pé, calculei quem entraria na mala primeiro, fiz umas caretas de quem está ponderando, gesticulei como que medindo o espaço da valize... olhei para os lados ameaçando pedir alguma opinião.

Coloquei tudo de volta na mala e deixei as meias por último pois adoro arremessa-las como se fossem bolas de basquete. A valize com a tampa aberta em 90 graus fazia uma tabela perfeita. Tomando distâncias cada vez maiores, demonstrava minha perícia para todos que quizessem ver. Aliás, alguns eram tão distraídos que não percebiam minha exibição e passavam bem na linha de tiro. Quando levavam meias na cara, ainda reclamavam.



Quem optou pela continuação "a" foi, como eu, muito otimista. Admito que esta também foi a opção na qual eu depositei minhas esperanças.

Mas as esperanças se evaporaram quando o segurança me alcançou e apontou para a máquina de raio-x. Fui "sorteado" pelo agente da fiscalização para ter as malas verificadas. Salvo uma enorme quantidade suspeita de roupa suja (que atordoaria qualquer cão farejador), tudo o mais estava na mais perfeita ordem.

"Dobrai utra", disse o fiscal me liberando. "Dobrai", devolvi.



Roland, Stelling e eu. Primeira foto em Moscou.


Pude, então, atravessar a última porta do aeroporto que separava o prédio do céu aberto de Moscou. Sim! Caracteres cirílicos para qualquer lado que me virasse. Mercedes, Ladas e limosines convivendo pacificamente e já revelando uma cidade de desigualdades. Me senti em casa.

No caminho para o hotel já podemos perceber a vastidão da cidade. Sem relevos, avenidas largas, Moscou se perde no horizonte. Mas esta é uma visão poética pois, de fato, os prédios altos e numerosos limitam o alcance da visão.



Rumo ao hotel: Avenidas largas e muitos prédios.


Quem dormir em São Paulo e acordar em Moscou, não perceberá diferença alguma mas, observando individualmente cada prédio ou objeto, percebemos que a palavra "velho" tem aqui o seu significado mais nobre: Feito para durar.

"Feito para durar", se aplica à arquitetura, automóveis, metrô, luminárias, encanamentos, asfalto, ônibus elétrico, artesanato e tudo o mais que ainda não foi contaminado pela onda consumista que também chegou até estas bandas.



Velho... mas funciona muito bem. Feito para durar.


Por falar em consumo, Moscou não é uma cidade barata. Pelo contrário! Os hotéis são muito caros e os restaurantes também. Uma corrida curta de taxi não sai por menos de 1000 Rublos (R$70,00 na ocasião) e isso está muito além das possibilidades de um moscovita médio e, sob este aspecto, me sentia um moscovita nato.

Com o hotel pago antecipadamente (antes de sair do Brasil), nos restava controlar as compras e andar de metrô (este sim, muito barato). Mas ainda não havíamos sequer chegado no hotel... e nos perguntávamos na van se teríamos banheiros nos quartos, já que optamos pelos alojamentos mais baratos que foram oferecidos.



Hotel Cosmos: Construído para os Jogos Olímpicos de 1980, tem quase 1800 quartos.


Obviamente que haviam banheiros (que tolisse a nossa!) e, surpreendentemente, banheiras também. O mini-bar era decorativo (estava desligado e vazio) mas tinha TV. O hotel tem também um Cassino, um mini-Shopping e casas de espetáculos. Mas a diária só incluia o café da manhã...

Estrategicamente posicionados na Avenida Mira, junto à estação do metrô, tínhamos Moscou literalmente em nossa palma da mão. Podíamos alcançar qualquer canto da cidade através das 13 linhas de metrô que se entrecortam como as linhas da palma da mão. Como ciganos experientes, marcamos o Kremlin bem no centro enquanto o nosso hotel ficou na interseção das linhas da vida e da felicidade. Não há como se perder por aqui.



No estacionamento do Cosmos, dispensei as limosines e fui de metrô.


Próxima parada: Praça Vermelha...

24.10.08

160. Rússia Capítulo I

categorias: Opinião

Outro momento aguardado com muita espectativa, após o congresso de Jurmala, foi a visita à Rússia.

Houve uma época em que o mundo era claramente dividido em dois. A União Soviética era (ao mesmo tempo) um dos polos da Guerra Fria e um mundo desconhecido que provocava a imaginação.

Aliás, grande parte do mundo oriental, por ser algo desconhecido, era preenchido com alguma fantasia. "As Mil e Uma Noites", Muralha da China, Budismo, Terras Santas, Vickings, samurais e Ivâ "O Terrível" nos eram apresentados pelos jornais e livros escolares como se fossem descobertas de cruzadas ainda recentes.

Já se foram Lennin, Stalin e Brejnev. Hoje Putim está lançando um vídeo de Judô e, por aqui, Medvedev não é mais conhecido que a saltadora Lebedeva ou as tenistas Kournikova e Sharapova.

Enfim, a USSR da letra dos Beatles não existe mais. Mas também não se transformou numa "Outra Rússia", como idealizou Kasparov. Moscou ainda é Moscou com direito à Praça Vermelha e Kremlin.



Nossos destinos: Moscou e St. Petersburgo

Aliás, foi no dia em que os moscovitas comemoravam 861 anos da fundação da cidade, num domingo 7 de setembro, que eu, Roland, Stelling e sua mulher, Andrea, desembarcamos na terra de Alekhine e Smyslov.

Ainda no aeroporto, tivemos de passar pelo controle de passaportes. Obviamente, existia alguma ansiedade: Seremos bem recebidos? Seremos interrogados? Esquecemos algum documento?

Antes de ir para a Rússia, é preciso obter um visto. Mas não é só isso: Você tem de preencher um formulário descrevendo seu roteiro de viajem. Quais cidades irá visitar, que dia entra, que dia sai, por qual agência... Tudo deve estar chancelado e verificado.

Além de tudo, durante o vôo para Moscou, preenchemos mais um formulário em duas vias! Portanto, haviam motivos para preocupação. Um a um, todos nós íamos passando pelo controle do aeroporto Sheremetievo (o mesmo onde Kasparov foi detido em 2007). Todos já haviam passado sem problemas enquanto eu ainda estava na cabine de atendimento. A funcionária pegou meu passaporte, olhou pra foto e olhou pra mim. Depois do "cara-crachá-cara-crachá", usou um leitor de código de barras, depois uma luz azul e, finalmente, uma lupa.

Enquanto analisava o visto, ela me parecia exatamente como uma barra de progresso do Windows...

hmm.... tsz, tsz, tsz... hmmm... humhum... humhum...


Declaração de Migração:
hmm... .... vira folha... humhumm... vira denovo... humhum...


Passaporte:
humhum... (?) pausa... (!) ohh... humhum...


Escutei o barulho do carimbo de entrada. A funcionária disse "Zdrástvuitche" e me devolveu o passaporte.

- "Spassiba", respondi.

Não acredito! Estou dentro. Os demais problemistas já estavam me esperando mais adiante ao lado da esteira com as malas. Até as bagagens vieram! Que dia feliz!

Pegamos nossas malas e tomamos o rumo do portão de saída. Eu era o último na fila indiana formada instintivamente. Passamos por uma porta, depois por outra e mais uma e então... "Mister"! Ouvi alguém chamando mas, certamente, não era comigo...

- "Mister", alguém gritou novamente! E continuei andando...

- "MISTER! STOP NOW!!".



Continua no próximo post...

Enquanto isso, você pode escolher uma continuação:
a) Quando me virei, um policial estava chamando outra pessoa.
b) Um segurança do aeroporto impediu minha saída.
c) Minha mala abriu e toda minha roupa estava espalhada pelo chão formando uma trilha de meias, cuecas e camisas atrás de mim.

20.10.08

159. Grande sucesso

categorias: Notícias

 


Palestra de Roberto Stelling em Vassouras-RJ

Foi um enorme sucesso a palestra sobre finais artísticos e estudos, ministrada pelo Campeão Brasileiro de Solucionismo, Roberto Stelling. O evento fez parte da programação do Torneio de Xadrez II Memorial Severino Sombra, em Vassouras (RJ).



Colégio Sul Fluminense de Aplicação, Vassouras-RJ

Ao todo, 23 pessoas assitiram a uma fantástica exibição de xadrez artístico no auditório do belo Colégio Aplicação. Na audiência haviam desde jogadores iniciantes até mestres internacionais.



Iniciantes e Mestres Internacionais juntos na platéia

Silvio Henriques, diretor do torneio em Vassouras, ficou especialmente impressionado com a riqueza desta modalidade de xadrez e admitiu ter sido surpreendido. "Eu não tinha idéia de como seria. Agradeço ao Maia (José Eduardo Maia) pela ótima dica" referindo-se ao amigo Maiakowsky que lhe sugeriu a realização da palestra.



Atenção total aos diagramas...


Próxima parada: International Solving Contest em 25 de janeiro de 2009 no Rio de Janeiro. Todos os detalhes em breve. Participem!

16.10.08

158. O trio parada-dura

categorias: Opinião

 


Petkov, Rehm e Caillaud. O trio "parada dura".


O Álbum FIDE referente ao triênio 2001-2003 ainda não foi publicado e está em faze final de edição. Mesmo assim, já sabemos que dois brasileiros, Almiro Zarur e Ricardo Vieira, irão receber, pelo menos, 1.33 pontos cada um.

Baseado nestas informações, montei a lista abaixo com todos os compositores brasileiros (ou radicados no Brasil) que figuram em Álbuns FIDE desde 1914 até 2003.

FM Felix Sonnenfeld (17,83 pontos)
FM Almiro Zarur (15,83)
Sebastião Silva (10,00)
Ricardo Vieira (7,00)
João B. Santiago (5,50)
Oswaldo Faria (4,50)
F. Mendes de Moraes (3,00)
José Figueiredo (2,33)
Jorge Yamanishi (2,00)
Mario Figueiredo (1,67)
Rui Nascimento (1,50)
Monteiro da Silveira (1,00)
Mario Novis Filho (0,50)
Pedro Dalla Rosa (0,50)



Chama a atenção as ausências de Demétrio Gussópulo e Valladão Monteiro pois ambos viraram nomes de temas problemísticos que se tornaram muito populares internacionalmente.

A presença de pai e filho (respectivamente José e Mário Figueiredo) pontuando no Álbum FIDE também é digna de registro.



São necessários 12 pontos para obtenção do título de Mestre FIDE (FM), 25 pontos para Mestre Internacional (IM) e 70 pontos para Grande Mestre (GM). Cada ponto equivale a um problema publicado no Álbum FIDE. Existem problemas publicados com autoria compartilhada entre 2 ou mais compositores. Neste caso, cada compositor recebe uma fração do ponto.

Os autores que mais pontuaram nos Álbuns FIDE, de acordo com a última lista oficial que cobre o período de 1914-2000, são:

Petko Petkov, Bulgária, (333,50)
Hans Peter Rehm, Alemanha, (202.70)
Michel Caillaud, França, (200,92)

Apenas 52 pessoas conseguiram alcançar os 70 pontos exigidos para o título de GM de composição desde que o primeiro álbum foi publicado em 1914. A pontuação para IM foi atingida por outros 152 autores.



A julgar pelas reuniões realizadas no Congresso Mundial em Jurmala (2008), o sistema de seleção das obras para o Álbum FIDE será modificado no sentido de limitar a quantidade de composições classificadas.

Por questões logísticos/financeiras, o tamanho do álbum precisa ser fisicamente limitado pois só vem aumentando desde sua criação. Isto terá impacto sobre o aspecto competitivo da modalidade e, por isso, foi tema de discussões acaloradas durante todo o congresso.

Na prática, os grandes autores já titulados e consagrados passarão a ocupar um precioso espaço onde poderia aparecer também um autor em ascenção.

Se já era difícil obter pontos em Álbuns FIDE, a tendência será ficar ainda mais...



Para se ter uma idéia, Petkov, Rehm e Caillaud, somam juntos 737.12 pontos ou cerca de 800 obras publicadas (considerando também as parcerias) em Álbuns FIDE. Um espaço muito considerável.

Contudo, estes 3 compositores continuam ativos e em excelente forma, produzindo uma quantidade imensa de obras de altíssima qualidade. Dados preliminares do Álbum FIDE 2001-2003, indicam que Petkov acumulará mais 37.25 pontos, Rehm terá mais 11.32 e Caillaud abocanhará incríveis 44 pontos!

Somando-se apenas estes 3 autores, teremos 92,57 pontos ou cerca de 100 diagramas a serem publicados. Este espaço seria suficiente para formar mais 1 GM ou 4 IM's ou 8 FM's.

Até hoje, esta impressionante concentração de talento nunca prejudicou ninguém, pois sempre houve espaço para as obras de valor de todos os demais autores.

A partir do momento que as novas regras entrarem em vigor, algumas obras reconhecidamente valorosas e merecedoras da consagração no Álbum FIDE, poderão não ter espaço. Quem ficar de fora, terá de esperar mais 3 anos, produzindo novas obras de altíssima qualidade sem se deixar desanimar.



As regras deverão mudar a partir do Álbum 2007-2009. Mas até se chegar na fórmula definitiva, acho que ainda haverá muita discussão sobre o assunto.

14.10.08

157. O Rei dos retrógrados

categorias: Opinião

 


Michel Caillaud e Leo Mano. Jurmala 2008.

 

O francês Michel Caillaud é GM de Composição, título que conquistou em 1993 quando tinha 36 anos de idade (façanha não igualada até hoje e que dificilmente será superada, a não ser que mudem as regras de pontuação e normas no futuro). Também é GM de Soluções tendo sido duas vezes Campeão Mundial nesta modalidade (1987 e 2002).

Compositor inigualável de Análise Retrógrada e feéricos mas também possui um estilo muito característico quando compõe problemas ortodoxos.

A sua obra problemística é grandiosa no tempo e na qualidade. Por isso é idolatrado até mesmo entre seus pares. Mas, surpreendentemente, ele também é extremamente tímido! Fiquei muito impressionado com a simplicidade e atenciosidade do francês.

Sempre sorridente demonstrando simpatia mas também nervosismo. Usa o mesmo sorriso ao receber homenagens ou ao testemunhar os "quebra-paus" das reuniões de cúpula (Michael também foi o delegado do comitê francês no congresso mundial).

Sabendo de seu constrangimento natural, os organizadores ainda brincam com ele: "Agora, para receber o primeiro prêmio, o espetacular, sensacional, grande amigo, campeoníssimo, mestre dos mestres... (e, na medida em que todos, incluindo o próprio mestre, vão percebendo que o premiado será o francês, o tom de vermelho no rosto do GM vai se intensificando a cada adjetivo)... fantástico, sensacional, Michel Caillaud"!!

E lá vai o grande campeão sorridente receber seus já costumeiros troféus, diplomas e medalhas, tímido, como se fosse a primeira vez que estivesse encarando aquela platéia, formada pela elite do problemismo mundial, mas que ali são apenas seus súditos, de um Rei que não se encherga como tal mas como um igual ou até mais humilde.

Foram as composições de Michel Caillaud que me inspiraram em várias composições de Análise Retrógrada. Uma modalidade dificílima de compor e solucionar. Portanto, obrigado Michel Caillaud, por sua obra e pela sua pessoa.

#2   Michel Caillaud, 1985
2º prêmio, Probleemblad

Um singelo mate em 2 lances que traduz, com clareza, a originalidade e estilo do GM francês.

1.d8=D? =
1.d8=T? (1...Rb6!)
1.d8=B? (1...Rd5!)
1 d8=C!
   1... Rb6 2.Be3#
   1...Rd5 2.Th5#





Felipe Cristino, Edson Oshiro e Orlando Silvestre.
Fonte: XadrezMS

O nosso colega, o jovem Felipe Cristino, que participou na final ao vivo do XVII Campeonato Brasileiro de Soluções, revela seu talento também no "jogo-jogado" ao chegar em 3º lugar no Circuito Metropolitano de Xadrez 2008 (Campo Grande-MS) ficando atrás apenas de Edson Oshiro (campeão) e Orlando Silvestre.



Edward Winter, do prestigiado site Chess History, me pediu dados sobre o compositor brasileiro Valladão Monteiro. De fato, é a segunda vez que ele me pede informações mais direcionadas à sua biografia (e não sua obra que é razoavelmente conhecida). Infelizmente, não tenho dados biográficos documentados mas prometi pesquisar.

Quem puder colaborar, pode mandar informações preferencialemente acompanhadas de fotocópia da fonte. O material pode ser enviado diretamente ao Edward Winter ou para o meu email problemasdexadrez@terra.com.br . Ficarei imensamente agradecido.