Problogmas de Xadrez

Blog de notícias do "xadrez arte", por Leo Mano.

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Terra Blog

Categoria: Opinião

17.12.08

169. Até breve... ou não

categorias: Notícias, Opinião

 




No próximo dia 27 de Dezembro as 10h da manhã, será realizado um workshop com o Campeão Brasileiro de Soluções de problemas de xadrez, Roberto Stelling.

Será uma ótima oportunidade para conhecer as modalidades de problemas e tirar suas dúvidas para o Torneio Internacional de Solucionismo (ISC).

A participação é aberta e gratuita. Todos estão convidados. O evento será na sala da Associação Leopoldinense de Xadrez (ALEX), Rua Álvaro Alvim, 48 / 905, Rio de Janeiro-RJ (Centro).






Problogmas de Xadrez está chegando ao fim... Mas não é uma má notícia!

Os posts passarão a ser publicados em "Problemas de Xadrez" (o novo endereço do problemismo brasileiro) enquanto "O Problemista" continuará sua função de concentrar todas as informações técnicas sobre as composições artísticas.

Aqui permanecerá um imenso acervo de histórias, notícias, fotos, problemas e crônicas até que o provedor Terra resolva apagar tudo (assim como fez com o antigo site "Problemas de Xadrez") mas com todo o cuidado de me avisar com 30 dias de antecedência!

Portanto, minha última crônica aqui neste espaço é um diálogo mantido via chat com o suporte on-line do provedor:



Terra: "Em que posso ajudar?"

PX: "Recebi email do Terra informando que as páginas pessoais serão descontinuadas. Este email é legítimo?"

Terra: "Sim Sr."

PX: "Mas meu pacote inclui 50Mb de hospedagem para página pessoal..."

Terra: "Este era um serviço gratuito sugeito à descontinuação a qualquer tempo."

PX: "Mas eu contratei o plano por causa do anúncio que incluia 50Mb no pacote".

Terra: "As páginas pessoais serão descontinuadas".

PX: "Vou ter alguma redução na mensalidade?"

Terra: "Não Sr."

PX: "O blog é gratuito?"

Terra: "Sim Sr."

PX: "Ele será descontinuado?"

Terra: "Não Sr."

PX: "Mas poderá ser descontinuado?"

Terra: "O blog não está sendo descontinuado."

PX: "Meu email é gratuito?"

Terra: "Sim. O serviço contratado pelo Sr. é apenas de acesso à internet."

PX: "Mas meu email será descontinuado?"

Terra: "Não Sr."

PX: "O serviço de anti-virus de email é pago. Se descontinuarem o meu email (que é gratuito) eu continuarei pagando o anti-virus mesmo assim?"

Terra: "O anti-virus pode ser estendido para tornar a sua navegação segura. O sr. deseja ativar esta opção?"

PX: "Ele me protege contra todos os provedores mal intencionados?"

Terra: "O anti-virus é atualizado diariamente."

PX: "Se eu ativar o anti-virus conseguirei impedir que tirem minha página do ar?"

Terra: "Não Sr."

PX: "Então não quero não..."



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26.11.08

167. Alice no País dos Espelhos

categorias: Problemismo, Opinião

 


Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898)

O reverendo Charles Lutwidge Dodgson, ou Lewis Carroll (como era conhecido o escritor Inglês), foi mundialmente aclamado depois que publicou o livro "Alice no País das Maravilhas" (1865). Basicamente, seu livro foi "classificado" como sendo direcionado para o público infanto-juvenil.

De fato, a ambientação e os personagens parecem nos remeter ao mundo dos sonhos de uma criança mas, nem por isso, o texto está desprovido de questionamentos lógicos, matemáticos, psicológicos, políticos e outras tantas sutilezas. Estas características permaneceram em outro livro chamado "Alice no País dos Espelhos" (1872), que é uma sequência da obra-prima anterior.

O nonsense, os paradoxos e o aparente caos dos acontecimentos refletem, na verdade, uma engenharia premeditada e calculada nos menores detalhes por um autor que também era matemático, fotógrafo e aficionado dos jogos de cartas e xadrez.

No País dos Espelhos, Alice assume a identidade de um peão branco e recebe a missão de se tornar Rainha. Durante a aventura, os personagens mais bizarros são encontrados. Inicialmente, Lewis Carroll havia criado um personagem para cada peça do jogo de xadrez mas, ao que parece, a história se tornou confusa e sofreu um "enxugamento" nas edições posteriores.

"O País dos Espelhos é um sonho de Alice? Ou Alice é um sonho do Rei Branco?" Este tipo de questionamento relativístico pode ter desdobramentos difíceis...

Peão branco (Alice) joga e ganha em 11 lances.

Infelizmente, a edição que possuo não contempla um diagrama criado pelo próprio autor que servia para "contar" a história sobre as 64 casas. Tive de busca-lo na internet.

A solução do autor não tem maiores compromissos com os formalismos das composições artísticas. Nem sequer a alternância de movimentos é respeitada. É apenas uma alegoria da própria história: 1) Alice encontra a Rainha Vermelha; 2)e2-h5; 3) Alice avança pela 3ª e 4ª casas (Tweedledum e Tweedledee); 5) d2-d4; 6) c1-c4; 7) Alice encontra a Rainha Branca com xale; 8) c4-c5 (se transforma em ovelha); 9) d4-d5 (loja e rio); 10) c5-f8 (ovo na prateleira); 11) d5-d6 (Humpty Dumpty); 16) f8-c8 (vôo do Cavaleiro Vermelho); 17) d6-d7 (floresta); 18) g8-e7+; 19) f5xe7; 20) e7-f5; 21) d7-d8 (Alice recebe a coroa de Rainha); 22) h5-e8 (Exame de Alice); 23) Alice se torna Rainha; 24) Alice no castelo (festa); 25) c8xa6 (sopa); 26) d8xe8 (Alice vence).

Contudo, para minha surpresa, descobri que existe uma série de mitos envolvendo numerologia e mensagens subliminares em torno dos livros de Lewis Carroll. No diagrama acima, por exemplo, podemos encontrar as iniciais "LC" ocultas entre as peças (L=c5+e4+f5, C=c1+d2+e2+f1). A fixação do autor pelo número 42 (que, aparentemente, existia de fato), se revela na posição inicial de Alice no tabuleiro (4ª coluna, 2ª fileira).

Alice Liddell (foto: Charles Dodgson)

Mas os mitos não param por aí e vão muito além. O relacionamento entre o autor (descrito como um solteirão tímido) e Alice Liddell (uma menina de 7 anos que foi sua modelo em várias sessões fotográficas) suscitou as mais variadas teorias sócio-comportamentais que variavam desde o ingênuo/paternal até o malicioso/destrutivo (passando por todos os tabus que o tema inspira). Senão, vejamos:

O livro descreve um duelo entre os cavaleiros branco e vermelho que representaria uma disputa pela própria Alice. O diagrama reproduz esta batalha nos lances 18.Ce7+ 19.Cxe7. O cavaleiro branco (vencedor) seria o próprio Carroll!

Avançando ainda mais no mundo dos símbolos, a indicação de xeque, que era feita por uma cruz (†) nos livros da época, também poderia representar o matrimônio e o branco do cavalo vencedor representaria a pureza em substituição à paixão e à luxúria (cavaleiro vermelho).

Assim como "Código da Vinci", "Matrix" e "2001-Uma Odisséia no Espaço", quilos de "mensagens" foram pinçadas de "Alice no País dos Espelhos". Comunidades foram criadas para este fim e outros tantos se aventuraram isoladamente.



Christophe Leroy (mestre francês) demonstra a história de Alice para Karpov.

Entre os "estudiosos" deste livro, podemos citar o mestre francês Christophe Leroy que chegou à conclusão de que cada personagem do livro é, na verdade, inspirado no mundo real. O Rei e Rainha brancos seriam os pais de Alice Liddell e a Rainha Vermelha seria a própria Rainha Vitória!

Tudo isso é muito interessante mas, antes de se deixar levar pelo mundo da fantasia, lembrem-se de que esta era a especialidade de Carroll! Seus textos foram deliberadamente escritos para isso. Por outro lado, nenhum escrito em seu diário, cartas (centenas delas) ou artigos, transparece qualquer intenção de envolvimento com Alice Liddell.

Já a fantasia proposta por Lewis Carroll é tão atraente que nos fica impossível perceber, por exemplo, que seu diagrama é, na verdade, um "mate direto em 3 lances" (nenhum artigo revela esta singeleza!) com todos os elementos básicos exigidos de uma composição artística: Solução única (1.Cg3+ Re5 [1...Rd4/Rd3 2.Dc3#] 2.Dc5+ Re6 3.Dd6#) e apenas peças essenciais aparecem no diagrama. Se tirar-mos o Cg8, por exemplo, o problema ganha uma solução alternativa (1.Cd6+ Re5 2.Dc3+/Db2+/Da1+ Re6 3.Df6#) destruindo-o por completo.

Este "mate em 3", por si só, não tem maiores atrativos mas é o perfeito contraponto na parceria entre a fantasia e a realidade que permeia todo o livro.



Mas eu não poderia terminar sem falar do "tema Excelsior" que, no problemismo, pede que um peão (que deve aparecer no diagrama em sua casa original) promova ao longo da solução. Exatamente como fez Alice no País dos Espelhos!

Sam Loyd
London Era, 1861
Brancas jogam e dão mate em 5 com a mais improvável peça ou peão.

Reza a lenda que Sam Loyd (genial compositor americano de problemas de xadrez) compôs o problema ao lado depois de ser desafiado por um amigo, Denis Julien, que disse ser capaz de "sempre dizer qual peça dará mate na linha principal de um problema de xadrez".

Loyd, então, mostrou-lhe a posição e lhe fez o seguinte desafio: "Você não precisa me dizer qual peça branca dará mate. Basta me apontar uma peça branca que NÃO dará o mate!" e apostaram um jantar. O amigo apontou para a peça que ele considerou ser a mais improvável de todas: O distante peão em b2. Obviamente, o amigo perdeu a aposta!

Motivado pelo hábito de dar nomes aos problemas, Sam batizou este de "Excelsior" inspirado por um poema de 1841 escrito por Henry Wadsworth Longfellow. O nome acabou batizando também o próprio tema brilhantemente construído nesta composição. Solução no post 91.

18.11.08

165. Rússia Capítulo final

categorias: Opinião

Foi em São Petersburgo, bem ao lado do nosso hotel, que tive a oportunidade de visitar um autêntico clube de xadrez russo. E não foi um clube qualquer... Na terra de Chigorin, era ele mesmo que recepcionava os visitantes, sentado numa bela cadeira, diante de um jogo de xadrez, estampado num enorme quadro na parede.

A entrada fica na Rua Bolshaya Konyushennaya e se resume a uma porta entre tantas outras naquela rua de prédios comerciais, lojas e hotéis. Logo na entrada existe uma vitrine e uma pequena loja especializada. Seguindo em frente, por um pequeno corredor não muito iluminado, alcançamos uma escada para o segundo pavimento.

No segundo andar ficam a administração do clube, uma ampla ante-sala e o salão de jogos. Havia um torneio em andamento e fui proibido de fotografar. Não era um torneio de GMs. Pareciam ser aficcionados, sócios e aprendizes (se bem que todos pareciam estar em dia com a teoria de aberturas).



Clube Chigorin. Foto: ChessBase

Contei umas 20 mesas ocupadas e, mesmo assim, o salão parecia quase vazio. Existem ali 70 mesas alinhadas sem aperto e um palco (com mais 6 mesas) adornado com 6 gigantescos tabuleiros murais ao fundo.

Na decoração estão fotos de todas as campeãs mundiais (incluindo Vera Menchik e Xie Jun), e cabideiros para os casacos. A tinta das paredes já estava envelhecida. Janelas fechadas e um mezanino para 40 espectadores completavam o ambiente.

Infelizmente, não cheguei a tempo de me inscrever no torneio... Me contentei em observar as partidas e os competidores enquanto imaginava como seria estar ali nos dias de grandes eventos, quando os maiores jogadores da história se enfrentavam ali.



Igreja de São Pedro e Paulo

Mas não havia tempo a perder. Muitas coisas ainda precisavam ser vistas e fotografadas. Cada segundo tinha de ser aproveitado e assim foi feito. Na última noite em solo russo, o quarto pequeno já não incomodava. O cansaço já beirava o esgotamento e as malas ainda tinham de ser feitas.



Catedral Kazan

Menos mal. O sono veio rápido, mas a noite seria bem curta. Levantamos no dia seguinte antes do Sol nascer. Um carro da agência iria nos levar bem cedo para o aeroporto. Foi a primeira vez que andei numa BMW!



Eu e Misha

Foi nosso último city-tour. Indo para o aeroporto passamos por lugares que não tivemos chance de visitar. Percebemos que a cidade é bem maior do que imaginávamos. Na vinda de trem não tivemos essa impressão porque a estação ferroviária fica praticamente no centro da cidade. O aeroporto, ao contrário, é bem mais afastado.

Enfim, este foi o resumo do melhor passeio da minha vida. Um fruto colhido no pomar das 64 casas e, principalmente, dos amigos que o xadrez me permitiu ter. Sem eles eu não teria conseguido realizar esta conquista.

12.11.08

164. Rússia Capítulo V

categorias: Opinião

A odisséia russa narrada em capítulos rendeu muitos comentários por email, nos clubes que frequento e entre os amigos. Aproveito para agradecer a todos pelas palavras tão gentís e pedir que comentem no post!



Esta "nuvem de palavras" foi enviada pelo Stelling utilizando o texto dos últimos posts. Clique na imagem para aumentar.




A viajem de trem entre Moscou e Leningrado dura 7 horas. Acredito ser a melhor opção de deslocamento entre as duas cidades. Viajando à noite numa cabine leito, é impossível não dormir profundamente com o balançar do vagão e o som característico das rodas de ferro se equilibrando nos trilhos de prata (dodeskaden, dodeskaden, dodeskaden). Mas o que me fez dormir melhor ainda foi saber que estava economizando uma diária de hotel.



Estação ferroviária em São Petersburgo

Se em Moscou bati meu record de distância de casa (11.600Km para leste), em São Petersburgo faltaram meros 700Km para alcançar o círculo ártico. Mas o frio de 4 graus era suportável e pude andar tranquilamente pelas ruas da cidade.

São Petersburgo, última escala de nossa viagem, foi outro ponto alto de nossa aventura. O Museu Hermitage é indescritível. Não conheço o Louvre (de Paris), mas ouvi mais de uma vez que o Hermitage é imbatível. Não faz sentido desfiar aqui todos os detalhes mas, para se ter uma idéia, pude esfregar (literalmente) meu focinho (figurativamente) em duas Madonas pintadas pelo meu xará Leonardo da Vinci. Eu precisaria de 3 dias inteiros para conhecer todas as alas do museu.



Hermitage: Acervo e palácio incrivelmente ricos.

Quando saímos do Hermitage, os problemistas se separaram e cada um tomou seu rumo. Andei pelas lojas procurando a Vodka Brillant (dica do Selivanov, GM russo e campeão mundial de soluções) e outras lembranças. Acabei sendo o primeiro a voltar pro hotel.

Ainda não havíamos feito o check-in mas o hotel já havia reservado dois quartos para os dois "casais" de problemistas: Roberto+Andrea e Eu+Marcos! Aliás, o hotel já tinha sido pago antes de sairmos do Brasil e, como sempre, optamos pelas configurações mais baratas: Um quarto duplo para cada casal!



Do alto da Igreja São Isaac, se vê o Rio Neva...

Peguei minha chave e fui para o quarto. Ao abrir a porta percebi que não havia muito espaço ali. Se a cama balançasse e fizesse "dodeskaden" seria igual à cabine do trem! No quarto só cabia (sob medida) a cama de casal.

Cama de casal? Uau! Um quarto só pra mim! A agência conseguiu um upgrade. Diante de uma surpresa tão agradável, o tamanho do quarto não me incomodava mais. Desfiz minhas malas, espalhei tudo pelo cubículo e fui tomar meu banho relaxante.

Eu ainda estava no banheiro quando escutei alguém tentando abrir a porta do meu quarto. Comecei a gritar lá de dentro: "Priviét"! Mas ninguém respondia. "Olá! Quem é"? Insisti.

A porta se abriu e pude escutar o barulho de malas tentando entrar no quarto. Só podia ser o Marcos e aí eu gelei. Íamos dividir uma cama de casal? Eu ainda gritei lá de dentro do banheiro: "Marcos, está tudo bagunçado porque eu pensei que esse quarto fosse meu".

A resposta veio após um constrangedor silêncio de 10 segundos...

- "Plôrra! Paruski plôrra! Bando de paruski plôrra!". Eu não podia ver o Marcos de onde eu estava mas, da maneira histérica com que praguejava, imaginei um daqueles ursos de pé agitando os braços e a boca aberta prestes a atacar a primeira coisa que aparecesse pela frente.



... e toda São Petersburgo até o horizonte.

Quando eu saí do banheiro (com um pouco de medo) a porta do quarto estava escancarada e já não tinha mais ninguém ali. O hotel nos reservou um quarto duplo com cama de casal!

Cinco minutos depois, o telefone do quarto tocou. Era o urso: "Leo, arrumei outro quarto com camas separadas. Eu vou aí buscar as malas".

Eu estava na Rússia vivendo uma montanha-russa emocional. Primeiro, já estava preparado psicologicamente para dividir um quarto com outro problemista. Depois, achei que teria um quarto só pra mim. Então veio a terrível perspectiva de dividir uma cama de casal! Finalmente, tudo parecia estar voltando aos eixos. O que virá agora?



A própria cúpula de São Isaac é um cartão postal

Quando o Stelling e sua mulher, Andrea, chegaram no hotel, foram conduzidos para um quarto com duas camas de solteiro. O Stelling, que até então não sabia das confusões anteriores, reagiu com naturalidade:

- "Idiot! Paruski idiot! Bando de paruski idiot! Plôrra!".

Quando o gerente do hotel percebeu que o dia não ia terminar bem, tratou de dar um upgrade na reserva do casal como uma maneira de se desculpar (e também porquê não haviam outros quartos vagos na categoria contratada). Segundo o Stelling, o quarto que eles receberam era tão grande, mas tão grande, que tinha um salão de convenções anexo à ante-sala que, por sua vez, tinha boate e cinema privativo. O único problema chato é que, para chegar no banheiro, era preciso passar pela sauna, por um ginásio esportivo, duas piscinas, um spa e uma academia.

Para não perder todo esse tempo, ele ia no banheiro da ala social que era quase a igual ao da suíte (ambos tinham hidromassagem e queda d'água), mas o social tinha karaokê no chuveiro.

Enquanto isso, eu e Marcos dividíamos uma cela. A minha mala teve de se transformar numa mesa de cabeceira, pois não havia onde coloca-la. Deitei na cama com os pés pra dentro do armário e o braço do Marcos ficou por cima do criado mudo. O controle remoto da TV era desnecessário: usávamos o dedão do pé. Eu controlava o volume e o Marcos os canais.



No dia seguinte, o Stelling nos contou as mil e uma maravilhas de uma noite nas Arábias, ou melhor, na Rússia. Achei muito estranho. Não ficamos no mesmo hotel? Ou você sonhou que estava no Burj al Arab no Dubai?

Quando ele explicou tudo que aconteceu, ficou claro que a minha volta antecipada ao hotel tinha desencadeado uma sequência de enganos que culminou numa noite presidencial para metade dos problemistas enquanto a outra metade fazia estágio para habitar submarino.

Como punição por não ter chamado os amigos para dividir tão grandiosa e opulenta hospedaria, dias depois (já no Brasil), depois de participar de um evento em Vassouras-RJ, convidei o Stelling para pernoitar em Morro Azul (uma cidade vizinha) na casa de amigos.

Após alguma resistência, ele aceitou. O sabor da vingança me fazia tremer de emoção. Eu gargalhava e esfregava as mãos como um bruxo aguardando o preparo de uma poção.

A casa em Morro Azul era pequena e já abrigava uma multidão. Não havia espaço para todos... Quando pulei na minha cama quente e macia, percebi que o Stelling estava meio perdido procurando um lugar para dormir. Apontei para um lençol estendido no chão e lhe desejei uma boa noite: Yes! Durma bem, campeão!



No próximo post, o epílogo desta saga: Último dia em São Petersburgo e a volta pra casa.

05.11.08

163. Rússia Capítulo IV

categorias: Opinião

A feira Smailovsky foi outra grande surpresa. Ela é, na verdade, uma cidade montada e decorada para receber milhares de pessoas que queiram comprar, comer ou apenas se divertir.



Feira de Artesanato Smailovsky

Restaurantes, lojas e museus distribuídos em prédios construídos no mais belo estilo russo. Cúpulas de cebolas multi-coloridas, torres e castelos de tirar o fôlego. Tudo muito bonito e impressionante.

Infelizmente, a feira não estava funciondo naquele dia (por ser uma segunda-feira) mas não perdi a viagem. Muitas lojas funcionavam na periferia de Smailovksy para atender uma demanda inseçante de turistas.

Menos mal... hoje é dia de xepa em Smailovsky. Dia de comprar barato e pechinchar. Eu tinha uma lista de compras que incluia um jogo de xadrez, camisas de futebol, uma Shapka (aquele gorro de pelo de coelho) e algumas matrioshkas (aquelas bonecas dentro de bonecas).

Consegui comprar tudo que queria e só fiquei indeciso com relação ao jogo de xadrez. Eu, inicialmente, pretendia comprar um set clássico mas encotrei ali uma quantidade enorme de jogos decorativos em madeira entalhada à mão. Trabalhos maravilhosos e que também se revelaram típicos da rússia.



Jogos de madeira entalhados à mão

Diante da minha total incapacidade de escolher um jogo, decidi que deveria olhar detalhadamente também os jogos que estavam no fundo do balcão. Caminhando com todo o cuidado entre todos aqueles tabuleiros, me senti eu mesmo como mais uma pecinha de xadrez indo de "e1" até "e8".

Observava cada peça sem tocar em nada. Seria um crime deixar sequer uma impressão digital naquelas obras de arte. Tabuleiros com entalhes fabulosos e delicados. Nada além de peças poderiam ficar sobre eles.

Eu estava hipnotizado caminhando até os confins daquela loja, peças e mais peças de todos os tamanhos e formatos. Quanto tempo o artesão precisou para construir aquelas esculturas tão impressionantes e frágeis?

Depois de muito pensar e analisar todos os trabalhos que existiam ali, cheguei a uma decisão. Chamei a vendedora e apontei para o exército que eu queria para mim. Ela apertou os olhos tentando localizar minha escolha e apontou também na mesma direção.

- "Dá", confirmei e dei por encerrada minha árdua missão.

Foi quando me virei naquele curto espaço e não pude ver um pequeno degrau sob meus pés. Aliás, eu também não podia ver meus pés escondidos por centenas de tabuleiros de xadrez na altura da cintura.

Sem achar o chão, tentei (desesperadamente) voltar o pé para a posição anterior. O pé voltou mas a inércia do corpo já estava projetada para frente. Meu centro de massa já estava além da ponta do meu nariz e isso significava "caminho sem volta".

Numa tentativa insana de suavizar a queda e não tocar em nada, comecei a agitar os braços no ar como um frango tentando alçar vôo. Quando meu pé de apôio também perdeu o chão, me senti em pleno ar mergulhando numa enorme piscina quadriculada.

Agora só pensava em fazer "menos água" possível. Mas foi um mergulho de barriga! Daqueles que dóem em quem assiste. Esparramei-me como uma enorme cruz gorda e pesada. Tabuleiros e peças voaram para o alto como se uma explosão atômica tivesse acontecido.

Um barulho ensurdecedor e sem fim abafava até meus pensamentos. Cavaletes, tábuas e mesas se espatifavam no chão. Destroços e mais destroços vinham do nada e se multiplicavam como se toda a feira estivesse implodindo.

Aquilo pareceu durar uma eternidade e, enfim, me vi deitado no centro de uma cratera de impacto. Agora o silêncio era total e eu estava paralizado. Ainda nem tinha aberto os olhos e senti uma picada na cabeça. Antes de enteder o que estava acontecendo, tomei a segunda picada e a terceira. Estava chovendo xadrez! Peças e mais peças caiam do céu e aquele barulho infernal recomeçou. Eu ria e chorava ao mesmo tempo.



Finalmente me levantei e percebi que todos na feira estavam paralizados. Ou o tempo parou ou soltaram a Medusa (que transformou a todos em estátuas). Olhando aqueles tabuleiros retorcidos e peças deformadas, não pude deixar de lembrar de alguns problemas feéricos do Oswaldo Faria...

Mas quem tinha problemas ali era eu. A valize aberta no Rio de Janeiro tinha sido um sinal. Enquanto sacudia a poeira e tentava recuperar a razão, escutei o primeiro grito:

- "Plôrra! Idiot! Idiot! Plôrra idiot!". Era a vendedora explodindo descontrolada numa crise de nervos que não era típica do artesanato russo. Instantaneamente a multidão começou a gritar junto...

- "Idiot! Idiot! Brasilie idiot! Brasilie plôrra! Ubit! Ubit!".

Foi o curso intencivo mais eficiente que já tive. Num único segundo passei a compreender russo perfeitamente. Me sentia um local... mas prestes a ser linchado ou coisa pior. Sai em disparada correndo no meio da multidão. O fator surpresa foi decisivo. A multidão ficou sem ação e consegui desaparecer na estação (sempre lotada) do metrô.

Chegando no hotel, avisei aos outros problemistas: "Temos de sair de Moscou imediatamente! Podem haver barreiras nos aeroportos. Temos de sair por terra!"

Fizemos as malas, colocamos bigodes falsos e pegamos um trem para São Petersburgo.